Vivendo e aprendendo a jogar

While we’re living… the dreams we have as children, fade away […]”

Maquinista? E o que será que faz um maquinista?” – foi o que se perguntou Ana (então “Aninha”), durante a aula sobre profissões, dada pela Tia Lourdes, no ensino fundamental. Àquela altura, sonhava em ser veterinária, adorava animais. Ser médica era opção também, mas não gostava de ver sangue.

Aos 12 teve certeza, seria cantora/dançarina pop. Mas esse sonho só durou até o lançamento do segundo videoclipe de sua cantora favorita, pois não gostara da música e a coreografia continha um teor sexual que a deixava encabulada.

Sua mãe a levava para agências de modelo e, Ana (a essa altura já havia sido “promovida” à Ana) se vislumbrava nas passarelas. Paris ou Madrid.
Chegou a figurar em alguns ensaios de uma marca de chiclete, mas todos (inclusive sua mãe) convinham que não devesse haver futuro para Ana naquele meio.

Dezenove anos e se aproximava o vestibular. Sonhava em passar numa federal. Não deu. Mas entrou na lista de espera e os familiares ficaram esperançosos com isso. Ficou a esperar.

Tendo entrado numa universidade particular barata, Ana sonhava com o estágio no banco que acabara de se tornar o mais importante do hemisfério Sul, embora tenha conseguido apenas uma vaga na banca do jogo do bicho.

Conheceu Renato na faculdade, um sujeito que em nada se assemelhava com o príncipe loiro da barba mal-feita que sonhara na adolescência, e engravidou. Perdera o emprego no bicho e teve de abandonar a faculdade, mas continuou sonhando. Queria ter uma linda menina. Até que nasceu o pequeno Carlos, que nem tão bonito era.

Hoje Ana está melhor e trabalha numa estação do metrô. Seu filho, Carlinhos, já estava com sete anos e sonhava em ser jogador de futebol. Ana botava fé.

Renato havia abandonado a esposa, apareceu alguns meses depois morando com Rita, a vizinha de Ana. Mas ela não se importa com isso, está vislumbrando um condutor de metrô que sempre vai à estação em que ela faz a limpeza. Vem e passa. E Ana sabe – tudo passa.

[…] they gonna fade away… away… away.

Nicolas Iory
Citações: Elis Regina/ Guilherme Arantes (Vivendo e Aprendendo a Jogar); Oasis (Fade Away)

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Sobre Santa Balbúrdia

https://santabalburdia.wordpress.com/about/

Publicado em 19 julho, 2011, em Contos. Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Maria Paula Vieira

    Curti muito! Uma leitura “gostosa”, Parabéns, Nico! (;

  2. Fiquei com dó da Ana, de verdade!
    Mas o texto ta muito bom! 😀

  3. Mariana Valentim

    ” …príncipe loiro da barba mal-feita que sonhara… ”
    Gostei
    É uma história real?

  4. Respondendo as lindas:
    M’ria: É nóes 🙂
    Fê: Eu quase resolvi colocar uma “Mega-Sena” na vida dela por dó, também ;S
    Mari: Não é inspirada em ninguém em específico… mas deve ser a realidade de “meio Brasil”. ;/

  5. “Vem e passa. E Ana sabe – tudo passa.”

    Um final perfeito…contém a ideia do texto…(pelo menos foi o que me pareceu…corrija-me se estiver errada.)

    Achei o ritmo, o encadeamento das ideias ótimo!

    o/

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