Arquivo mensal: agosto 2011

Tempo

foto: Fernando Maluf

“Eu vejo o futuro repetir o passado,
eu vejo um museu de grandes novidades… o tempo não para”

*

“Hoje o tempo voa, amor…
escorre pelas mãos… mesmo sem se sentir.
E não há tempo que volte, amor,
vamos viver tudo que há pra viver…
vamos nos permitir”

*

Agradecemos a todos pelas visitas do #SantaBalbúrdiaDay.

Citações: Arnaldo Brandão/Cazuza (O tempo não para); Lulu Santos (Tempos Modernos).

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Da série: Contos da vida alheia

fonte: http://bit.ly/nKvEZE

Ele estava trancado naquele hospital. Era inquietante ficar em um lugar tão hostil e maçante enquanto a vida corria lá fora. Mas o garoto tentava, a todo o momento, se comparar aos demais pacientes, e o alívio era imediato ao perceber que não havia qualquer semelhança. Não estava ali porque era doente, na verdade.

Era uma pessoa metódica, ou melhor, ainda é. Sendo assim, bolava métodos para não ficar na companhia de si mesmo. Focava apenas nos estudos, como se todos os seus problemas se resumissem ali. Fazia isso por não gostar de lidar com assuntos pessoais. Não gostava porque isso remetia a algo inferior e ele queria estar sempre por cima.

Foi acumulativo. Ele ignorou tanto os tormentos escondidos, que estes o exasperaram até um ponto limite. E aí houve a explosão. Ele gritou, bateu, xingou e, por fim, foi taxado de louco. Talvez se ele tivesse resolvido tudo pouco a pouco, sem exageros, nada disso teria acontecido. Porém, ele ignorou e deixou acumular, até não suportar mais.

Conversou com o especialista, que lhe esclareceu cada peculiaridade do que havia ocorrido. A vida possui vários âmbitos, mas para facilitar (didaticamente falando), o melhor é dividirmos em dois recipientes, disse o perito. Um deles está relacionado à nossas responsabilidades como células de uma sociedade, devemos cumprir com os nossos deveres. Ele fazia com maestria. Cada vez que uma gota caía nesse recipiente, ele o esvaziava. Contudo, o recipiente dos conflitos humanos também era preenchido e ele o menosprezava, até que transbordou.

Por se achar racional demais, era incapaz de lidar com assuntos emotivos e frágeis. Era preferível ser o insensível. Mas de que adiantou bancar o forte por tanto tempo? Agora ele estava lá, na cama daquele hospital, escancarando pra quem quisesse ver, a sua instabilidade, a sua fragilidade.

O fato é que nunca devemos ignorar uma face da nossa vida e focar apenas na outra. Temos que estar bem com ambas. É uma tarefa árdua, mas é possível. Se não fizermos isso, uma hora o recipiente transbordará, e as coisas acontecerão da pior maneira possível. Ao pensar nisso, o menino olhou ao redor da sala, todos os pacientes já estavam dormindo, então ele tratou de fazer o mesmo, mas antes, pensou em como tudo seria diferente a partir daquele momento…

Bruno Souza

I’m Outta Time

É muita arrogância eu fazer exigências nesse momento?
Porque, caso não se importem, não quero que se esqueçam de preparar o ambiente com muitos assentos, de preferência estofados. Gosto de flores, embora seja clichê. Mas acho que não é hora para se importar com isso… quero com diversidade mas sem exageros.
Música tem de haver, nunca gostei de ambientes silenciosos. Toque o que gosto, você sabe bem.
Acredito que o Marcos virá acompanhar a despedida, assim como a Paula e o marido também devem vir. Será um evento interessante, não?! Nunca consegui reunir os amigos do trabalho e os da escola numa mesma cerimônia…
…O Marcos e a Paula… que festa que irei perder!

Lembro-me de imaginar esse momento quando era pequeno… meu Deus… há quanto tempo vivera aquilo!
A gente se perguntava com qual idade seria ideal… minha irmã dizia desejar que ocorresse durante o sono. Mas fico contente por estar desperto com vocês ao meu lado.

Será que ainda consigo pôr sentido nas minhas palavras ou, ao menos, pronunciá-las de maneira compreensível?
Sinto um torpor intenso e percebo que a cunhada descrição da vista escurecendo não é mitologia. Mas ainda há luz… por enquanto há.

A Rita informou-me da morte do Paul Sharrock na segunda-feira.
Gosto da Rita. Não deixem de agradecê-la pelos cuidados que me dispensou nessas últimas semanas.
Com a minha viagem à Ilha de Tártaro, fretando a barca de Carontes, acredito que irei aparecer ao lado de Sharrock nas mesmas reportagens e discussões, e nos tornaremos símbolos de uma luta na qual jamais estivemos engajados.
Sorte a nossa sermos iconizados a essa altura, não?

Sempre fui uma pessoa de muitas dúvidas, vocês bem sabem, mas é bom chegar aqui com a mais importante das certezas – sou um homem feliz.
Orgulho-me das escolhas que fiz e dos laços que fixei.

Não imagino como teria sido caso o meu lar jamais tivesse ouvido o teu resmungar infantil pelas manhãs, qual o perfume eu sentiria ao me virar para o lado esquerdo da cama e como eu teria chegado até aqui sem conhecer o ritmo desse meu coração que habita o teu seio. Já não me lembro de como eu era antes de ti e, nos flashes que consigo recriar, me vejo sempre com meio sorriso… meia verdade… meia felicidade. Não consegui ocupar o meu pensamento de outra maneira nessas últimas horas, se não agradecendo a oportunidade de ter vivido ao teu lado.

O nascimento de vocês foi, também, um renascimento meu. Só Deus sabe como foi grata a minha surpresa em descobrir como eu era capaz de distribuir todo o meu sentimento e empenho àquelas criaturas que mal me reconheciam e, se o faziam, era apenas por eu sempre estar ao lado daquela que os alimentava.

Se ainda me ouvem, por favor, peço-lhes que não deixem de, nenhum dia sequer, demonstrar aquilo que sentem ou pensam… não quero que percam tempo com jogos de aparências e, eu prometo – vale a pena viver assim.

Tanto mais queria ensiná-los e vivenciar tantas coisas mais ao lado de cada um de vocês… mas sabemos que isso já não está mais ao meu alcance… agora… acho que eu estou sem tempo.

Nicolas Iory

Citações: Oasis (I’m Outta Time); Titãs (Antes de Você).

É bom, mas cuidado!

fonte: http://bit.ly/qMRGBt

Eu elogio. Tu elogias. Ele elogia. Porém, tome muito cuidado, porque o elogio nada mais é do que uma armadilha travestida de gracejo. E se engana quem pensa que é o praticante de tal ato que prepara a arapuca. Não, o bajulador não tem culpa, quem tem é o bajulado. Porque enquanto o primeiro está apenas expressando uma opinião sincera (ou não, mas vamos supor que sim), o segundo se deslumbra facilmente, com a ingenuidade do tolo.

Experiência própria, meus caros, quando recebemos muitos elogios, ficamos mal acostumados e passamos a não suportar mais as críticas. E, nessas alturas do campeonato, o que importa são as críticas, pois são elas que nos fazem amadurecer, refletir e mudar.

Descobri que é impossível agradar a todos, sempre vai ter aquele sujeito que insiste em ser a pedra no seu caminho. Ele te critica, ele te desafia e você passa a não gostar dele. Mas é esse indivíduo que você deveria considerar. Porque o que te desafia sabe que você tem potencial para fazer mais e melhor. É claro que tem aquele que vai colocar defeito em tudo que você faz pelo simples fato de não ir com a sua cara, mas não são esses que nos interessam.

Sempre foi difícil, para mim, lidar com esse lance de elogio e crítica até eu perceber que não se tratavam de coisas antagônicas. Eram coisas diferentes, cada uma com sua função. O difícil mesmo foi eu deixar de ser “mal acostumado”. Deixei de ser porque eu cresci, cresci e descobri que existe gente muito mais capaz, muito mais inteligente, muito mais legal, enfim, muito mais do que eu. O mais bacana é que você admira e compete com essas pessoas ao mesmo tempo.

A verdade é que por mais humilde que o indivíduo possa – ou diga – ser, não importa, a gota do elogio vai pingar, e seus respingos vão tocar naquilo que todos têm: o orgulho próprio. Não há como se esquivar, é algo que levanta nosso ego, nos ilude e nos faz tão bem ao mesmo tempo. Todos esperam elogios por algo que fazem. Assim como eu espero que você, agora, comente e elogie meu texto. Oh, doce contradição…

Bruno Souza