Arquivo mensal: setembro 2011

Dica Cultural – Café Turco (Türk kahvesi)

Muitas vezes percebo, em diversas postagens, imagens que não possuem a mesma ideia que o texto. Imagens clichês são condizentes apenas a textos clichês, mas ainda somos acostumados a apenas pensar diferente (o que é expressado em muitos bons textos que vem sendo escritos) e agir igual (o que acaba ficando por conta da imagem).

Isso foi apenas um desabafo e um alerta, pois essa postagem nasceu de uma descoberta de quando eu estava a procurar uma imagem para ilustrar o último texto.

Professora Sibila Trelawney - Fã assumida de café turco. (fonte: http://bit.ly/oNVnON)

Procurar imagens de comida/bebida costumam me deixar muito mais com fome/desejo do que propriamente satisfeito com os achados, mas, dessa vez, ganhei um sentimento a mais: a curiosidade.

Na “procura pela foto do café perfeito”, acabei descobrindo o café turco (“Türk kahvesi” no idioma turco) que é muito mais encorpado que o “nosso” café ocidental, pois, diferentemente do que a mamãe,vovó ou o português da padaria fazem, o café turco não é coado, ele é feito (quase) do mesmo modo que fazemos nosso leite com Toddy – aquece-se tudo (café, água, açúcar) ao fogo até que a formação de espuma indique que chegou ao ponto.

Além do preparo, o café turco é feito com um pó diferente do nosso, pois os grãos são processados à uma granulometria muito menor que a do Pilão ou a do Caboclo (eca), se assemelhando aos grãos do açúcar de confeiteiro! (aquele que cobre o donuts ou o sonho, sabe?!)

Não sei se compartilham da minha expectativa… mas esse café turco me parece sensacional!

Apenas ser diferente não seria suficiente para me levar a escrever um texto paralelo ao principal do dia, mas acontece que o café turco é “divertido” para além dos 4 ou 5 goles que se dá ao consumi-lo – a borra do café ainda revela o seu futuro manolo!

Isso mesmo fãs de Harry Potter… igualzinho à saga de J.K. Rowlling.

Como o pó do café não é coado, ele acaba decantando no fundo da xícara, formando uma densa camada de borra. Desse modo, ensina-se que aquele que tomou o café (e apenas ele), deve seguir o procedimento do gif ao lado, aguardando com a xícara de “cabeça para baixo” até que esfrie, para depois ler o que os deuses-do-café-não-coado tem a dizer sobre o teu futuro.

A moedinha exibida no passo 4 é um “macete” para “chamar dinheiro” – o que aconteceria pelo fato da moeda absorver o calor da xícara :S

Quem quiser saber mais sobre o café turco ou aprender algumas das indicações que a borra do café tem a dizer, basta seguir o link.

Nicolas Iory

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Dois dedos de exagero

Outra vez eu estava à janela fria de um ônibus parado na estação, quando presenciei uma cena tola que me fez pensar.

Uma mulher caminhava até um banco próximo à calçada carregando um desses copos descartáveis com café. A distância era curta, pouco menos que dez metros, mas foi de uma melancolia de dar dó.

Havia chovido durante o dia e o piso não conferia grande segurança. Mas nem por isso dava-se o embaraço daqueles passos. O que tornava o trajeto uma tarefa incrivelmente arrastada era o fato de (o simples fato de) a mulher ter enchido o copo até a boca. O leitor já deve ter passado por situação parecida. Eu mesmo sofria para abrir a porta da cozinha sempre que queria levar prato e copo para almoçar na sala.

Tornando à aventura da nossa heroína, conto-lhes que, o que me instigou nisso tudo foi o ato da mulher no chegar ao dito banco. Num virar seco e breve e, apenas para alívio daquele copo, a mulher dera um gole displicente, algo sem sentimento e sem vontade. Quase pude a ouvir pensando “deixa-me esvaziar logo essa porcaria d’sse copo”… ainda preciso treinar mais esse super-poder de ouvir pensamentos.

Esses filhos de Deus me intrigam com sua falta de coerência. Aquele mísero gole que fazia a fronteira entre o caminhar tranqüilo e o drama que presenciei era algo de dispensabilidade conferida. A prova disso é que, de fato, a primeira coisa que a mulher fez ao atingir o seu objetivo foi dispensá-lo. Ingerindo, claro, mas dispensando.

O copo de café andou visitando as minhas reflexões desde então… em diversos casos sociológicos eu pude encontrá-lo transvestido n’outras formas.

O vi passear pela vida das pessoas que preterem o lazer com os amigos ou o descanso para conseguir ou economizar algum dinheiro e, sem perceber, acabam gastando a quantia com coisas infinitamente mais dispensáveis que o tempo de tranqüilidade preterido. Numa escala maior, o vi na escolha do funcionário de trabalhar duramente os seus anos de “validade trabalhista” para conseguir uma boa aposentadoria, e agora não tem mais com o que gastar… nem mesmo os amigos… nem mesmo a saúde.

Por outro lado, a situação do copo de café nos mostra mais que um retrato do exagero humano. Esteja certo que, caso a nossa heroína fosse apenas uma garotinha e sua mãe a observasse naquela situação, essa logo diria um dos 20 textos de mãe* do tipo “isso vai dar merda” e, então, a garotinha iria insistir na empreitada apenas para provar que é capaz.

Veja se o caso não se parece com as pessoas que reconhecem alguns defeitos próprios e, mesmo sob críticas e/ou conselhos, insistem em se manter daquele modo apenas por orgulho próprio, sob a alegação vazia de que “esse é o jeito dela”?!

Parece, não parece?!

Tudo tem sua medida, e comprometer-se apenas para não dar o braço a torcer é, no mínimo, incoerente. Pega leve! Aliás, aproveite para pegar, também, um cafézin’ para mim.

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* Acho que a Dona Cegonha entrega um manual com 20 frases pré-estabelecidas para as mães utilizarem durante toda a criação da “encomenda”. Esse manual inclui  mandamentos como “Eu avisei”; “Leva uma blusa”; “Que bom. Agora cuida” (quando você encontra algo que perdeu) e etc.

Nicolas Iory

A história da glória da manhã – Delírios (parte 4/4)

Qual a história da glória da manhã?!

Como num piscar de olhos – num momento você estaria vivo, e noutro, já estaria no julgamento final. Haveria chances para atingir a salvação, mas tenha certeza, isso decorreria de sofrimento em um tempo difícil, ainda aqui na terra.

O Apocalipse sempre é motivo de temor para nós que mal sabemos (ou não sabemos) da existência de entidades espirituais. O Criador batalhando por seus filhos contra aquele que o traiu e se postava do outro lado do tabuleiro.

Tudo isso ocorreria nesse planeta físico em que vivemos. Não haveria mais ciência para contestar e nem jornal para noticiar.

Assim (ou quase assim), ela me explicou.

Quantas pessoas especiais mudam? Quantas vidas estão sendo vividas estranhamente? […] Pois as pessoas acreditam que irão simplesmente chegar ao verão. Mas eu e você, vamos viver e morrer… o mundo segue girando e não sabemos o porquê

Nunca precisei de estímulos exteriores para “viajar” com essa música.
Uma religião por si só, é possível sentir alegria, melancolia, tristeza, relaxamento, nostalgia e inquietação ouvindo essa que é uma das músicas mais “interprete do jeito que conseguir” do Oasis.

Chego em casa sem sentir frio, e satisfeito por ter me lembrado um pouco de Deus, e reciclado algumas crenças que estavam no armário.
Sem consumir mais que boas palavras, músicas e dois cigarros, eu havia atingido um nível de satisfação incomum para uma terça-feira qualquer.

Sigo me sentindo sem preparo para seguir alguma religião ou freqüentar alguma igreja em específico.
Por enquanto, vou alcançando minha glória apenas através da música. Ou quase apenas.

Nicolas Iory

A história da glória da manhã – Delírios (parte 3/4)

Alguém pode dizer que eles não acreditam no paraíso. Vá e diga isso àquele que vive no inferno” 

Balança o ônibus. O corpo é imóvel. A mente dança.

Aqui vai o pensamento para todo homem que tenta compreender o que possui em suas mãos […] Com todo o peso e todas as palavras que tentou dizer, acorrentado aos lugares que jamais desejou estar, assim que ele encara o sol, dissolvem-se as sombras

Já não era a primeira vez que essa música me soou como uma mensagem de salvação.

Com tudo aquilo que nos é imposto, todos os problemas e limitações que possuímos, sempre há a luz do sol para nos iluminar e aquecer. O sol nasce para todos…

Ela é elétrica, eu poderia ser elétrico também?!” 

Acendi meu segundo cigarro na estação. Havia garoado nesse lado da cidade.

Enquanto o ônibus não partia, a cobradora havia comprado uma pamonha com o dinheiro da catraca, e o motorista gargalhava alto para um casal de amigos.

Quando o ônibus partiu, a moça levara colheres de pamonha à boca do motorista enquanto esse pilotava. Sorri e percebi que não era o único que reagia à situação desse modo.

A cada colherada, o ônibus se movia um pouco para a direita, acompanhando o movimento do piloto que esticava o pescoço para abocanhar o doce. Parecia criança. Deve ser bom ter alguém para cuidar de nós, mesmo sabendo que aquele não era o caso do motorista.

Perdi o final da música observando a cena.

[…]