Arquivo mensal: outubro 2011

“Piranha” pode!

Eram três casais ao redor da mesa, me contava o garçom de bigodes. Dois casais e o Paulão.
Segundo o Bigode, já estavam na casa de 6 ou 7 chopes…  E ele desconfiara que tivesse se esquecido de anotar uma rodada. Na dúvida, anotou 9 chopes para cada.

O papo era agitado e as mulheres riam muito, enquanto os homens achavam que poderiam se aproveitar da embriagues mútua para observar outras mulheres no bar. Pura ilusão. Os homens são descontroladamente imbecis quando bebem,  enquanto as mulheres, apesar de serem sempre descontroladas, nunca ficam imbecis. Azar do Geraldo.

Ele e sua mulher, Rebeca, desataram a contar uma série de causos engraçados, era o que havia de mais interessante no momento, embora um ou outro assunto paralelo surgia, de vez em quando.
Foi após uma engraçada história da Rebeca que o Geraldo pregou o punhal em seu próprio peito.*

– A Rebeca era mesmo uma ordinária! Só melhorou depois que eu dei um jeito nela!

Todos riram. Todos menos Rebeca, que havia ficado súbita e incrivelmente séria.
Aqueles poucos segundos se desenrolaram na cabeça de Geraldo na sequência:

1. Riu da sua capacidade de dizer gracejos mesmo estando bêbado.
2. Ficou contente por ver os outros rindo da sua anedota.
3. Olhou para a mulher, já prevendo que ela poderia não ter gostado.
4. Reduziu o riso… de fato, o pior se anunciava…
5. Forçou mais um breve sorriso, numa última tentativa de dissuadir a ira de Rebeca.
6. Desconsolo… A estratégia não dera certo e ele teria mesmo que se explicar.

– Qual é amor? Não vai me dizer que…
– “Qual é amor?”?! O que é que você esperava, que eu risse também?!
– Era só brincadeira!
– Nada justifica Geraldo! “Ordinária” NÃO!
– Você também estava brincando até agora e…
– EU NUNCA TE CHAMEI DE ORDINÁRIO!
– Mas amor… Você sabe como é… Eu já bebi um pouco e…
– Então pare de beber!
– Mas você também est…
– Não me diga o que eu devo ou não fazer, Geraldo!
– Mas amor…
– Até mais Geraldo.

Saiu da mesa.
Os outros dois casais foram solidários e a acompanharam.

– Tá vendo, Paulão? Puta falta de senso de humor… Não entende que é uma brincadeira…
– Fica frio, Geraldo… Logo mais ela esquece.
– Tava tudo numa boa até agora… Coisa mais besta essa! Porcaria…
– Mulher é assim mesmo cara… São todas umas cretinas!
– Dissimuladas!
– Umas piranhas!
– Isso mesmo, Paulão, repugnantes!
– Não vamos ligar para essas ordinárias, Geraldão! Garçom! Traz mais uma aqui, pr’a gente!
– …….
– Qual foi Geraldo? Vai se deixar abater?
– Porra, Paulão… Me desculpe repreendê-lo mas… “Ordinária” não né, mano?!

Nicolas Iory

Breve elucidação (fazia tempo que eu não brincava disso)
Coloquei o título imaginando um possível comentário feminino, após ler o texto… Seria irônico, claro.

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Indecisão entre amigos

Era um desses feriados no meio da semana. Desses que não se sabe bem o porquê de ser feriado e as pessoas costumam não aproveitar para nada, além de observarem o tempo passar, deitadas em seus sofás.

Naquela cidade, todos os dias eram meio daquele jeito. Muitos nem sabiam que fosse feriado.

Pararam para pedir informação em um posto de gasolina.

– Tu pode me dizer para qual time a gente daqui torce?
– Para quê o quê?
– Time! Pra que time as pessoas daqui torcem?!
– Ah… O pessoal daqui é Flamengo ou Vasco. Um ou outro é Corinthians.

Agradeceram e partiram rápido.

– Falei pra tu que é Flamengo, Airton?
– Flamengo não! Tu não “ouviu ele” dizer Vasco, ô Criolo?

A discussão havia se iniciado há cerca de uma hora atrás, numa estrada seca daquela região de Sergipe. Ali, um terceiro passageiro havia entrado no carro. Não tinha nome.

– Porra Criolo! O cara tá morto! E agora mané?!
– O bicho pegou, Airton! Bora deixar esse nêgo aí e dar no pé!

Não deixaram. Não o deixaram pela sua tatuagem no braço direito.
Dizia: “Do berço ao caixão. Meu clube, minha paixão”

Um verso horrível. Horrível, porém sério. Futebol é coisa séria.

Não havia documentos ou algum pingente que desse pistas, e mais nenhuma tatuagem (que fosse identificada sem maiores contatos físicos) foi vista.
Decidiram pô-lo no carro e enterrá-lo dignamente, com a camisa do clube mais popular da região, para terem mais chances de estarem fazendo a coisa direito.
Compraram uma camisa do Flamengo e outra do Vasco em um mercado pequeno.
Pagaram barato.

– Tu sabe que o Flamengo é bem maior por aqui, Airton…
– Não me venha com essa! O Vasco é o Vasco em qualquer lugar do Brasil!
– São mais de trinta milhões…
– Um vascaíno reconhece o outro até mesmo em Portugal! Esse cara é Vasco. Certeza.
– Mengão.
– Vascão.

Passaram quarenta minutos discutindo à beira da estrada.
Optaram pela democracia.

– Par.
– Ímpar.

Deu seis.

– Eu falei manéé!!! Aqui é Meeeeengo, Airtão!!

A terra era dura. Ruim de cavar.
Entraram no carro. O Airton com a sua nova camisa do Vasco.

– Melhor mesmo que aquele trapo tenha ficado no fundo daquela cova, nessa terra morta. Isso sim é camisa – e beijou o escudo do Vasco.
– Vai te foder.
– E tu ainda é burro de ter pagado a camisa pr’aquele indigente. Flamenguista é tudo burro.
– Vai te foder, Airton.
– Só sabe falar isso… depois que eu digo que flamenguista é burro…

Airton não disse mais nada naquela noite. Criolo também não.

Na manhã seguinte, me disseram, avistaram Criolo cavucando uma terra dura e difícil de cavar, à beira de uma estrada. Nunca mais tive notícias do Airton.

Futebol é coisa séria.

Nicolas Iory

Como foi o seu dia?

(Ah, maldita falta de assunto que me leva a escrever sobre essas cotidianices…
Psshh! Nada de menosprezar o assunto antes de iniciar, discorramos…)

Tem-se essa pergunta apenas como uma ponte para tentar dar sequência a uma conversa e não é notado o verdadeiro fator de importância que a resposta pode ter.

Por mais que tenhamos uma rotina com horários, lugares e tarefas definidas (ou quase definidos), é incrível como a terça-feira de uma semana pode ser absurdamente diferente do mesmo dia da semana anterior.

Uma noite mal-dormida; o ônibus que atrasou; um elogio do patrão ou a chuva que caiu… Nossa rotina nos deixa sujeitos a tudo, e, a cada vez que uma dessas manifestações do universo nos atinge, tudo muda para o nosso ânimo diário. Chega a ser infantil, a nossa suscetibilidade.

Talvez o mundo fosse um lugar mais feliz antes da popularização do termo “auto-estima”. Tenho um amigo que, depois que soube o que isso significa, passou a ter crises de alegria ou tristeza profunda a cada vez que classificava sua auto-estima em alta ou baixa. (sempre achei engraçado o termo “baixa auto-estima”. Quando criança, pensava que fosse “baixo alto-estima”… o que não fazia muito sentido para mim. “Baixo alto” seria uma “média-estima”?!)

Tornemos ao meu amigo.

Quando uma ou duas coisas iam mal em seu dia, tudo aquilo que também o era, nas demais áreas de sua vida, vinha à tona em seu pensamento. Era melancólico. Ou o contrário, quando passava a se sentir o dono do mundo.
Mas isso passava, na manhã seguinte. A cama cura.

Num plano maior, passo a questionar a possibilidade de ser plenamente feliz. Deixaríamos de nos abalar pelas situações diárias, assim que estivéssemos onde desejamos estar?

Opa. Pera aí. A luz amarela começou a piscar em minha mente. Não posso dar sequência a esse assunto mamilar, isto é, polêmico. “Não posso” por não querer entrar na velha fábula de “se alcançar a felicidade”, porque, afinal, a vida é aqui e agora, e eu nunca fui de dormir no carro, para só aproveitar a viagem assim que estiver no destino final.

Mas, é claro, eu digo tudo isso agora. Após ter um dia que me levasse a crer que estou em passo de afirmar ser um cara feliz. Talvez eu fure um pneu ou discuta com um amigo amanhã, e acharei todo esse papo uma grande bobagem. Assim como você, que se arrastou para chegar até aqui. E o fez apenas por desencargo de consciência.

Mas relaxa. Eu já fiz isso também.

Tenha um bom dia.

Nicolas Iory

Saber Amar(go)

Casa-te comigo? – disse ele, cozinhando.

Não brinca com isso… você sabe que não é bem assim. – ela riu, assoprando.

Pode ser assim se quisermos. Eu te amo.

Então prove. – disse rindo de si mesma, mas gostando da reação causada.

O gosto cítrico e adocicado dos últimos dois meses havia marcado mais que os dois anos anteriores de sua vida. Talvez fossem os 60 dias mais saborosos que Karla já vivera. Assim ela acreditava.

A ninguém importava o modo como se conheceram, mesmo ela sentindo a semelhança entre aquela ocasião e um trecho de sua música favorita, como um exótico tempero para o início de um romance em carne e osso.

Tudo em sua paixão era frescor, um sentimento temperado que contagiara até mesmo aquilo que não se referia ao namoro – a vida tinha um novo sabor.

Repassava as qualidades de sua paixão mentalmente com frequência:

Ele é um homem bem posicionado socialmente, dono de uma grande fortuna (não que eu dê importância para isso) – se reprimia – e está completamente apaixonado por mim…

Que apimentada emoção que a consumia… todos notavam – havia comprado novos vestidos e passou a almoçar apenas fora de casa. Estava experimentando a prazerosa acidez de estar despreocupada por ter um novo amor.

Juntos eles viveriam o conto que, bem era verdade, ela jamais ousara sonhar. Mesmo sendo uma pseudo-aristocrata moderna, ela reconhecia que ele estava à frente daquilo que sempre aguardou. Ela o amava.

Recebeu uma nova mensagem no celular: “A prova foi feita. Logo saberá. Te amo.

Ela sorria imaginando a surpresa que a aguardava… até a metereologia a ajudava a manter o seu estado de espírito, conferindo um açucarado sol pela manhã, que inundava sua sala de estar e destacava seus sofás cinza-grafite. – Cinza-grafite?! Não agora. Irei trocar esses móveis amargos. Agora eu quero apenas o novo.

 Os novos sofás chegaram a uma terça-feira. Ela estava em casa, pois havia pedido afastamento no trabalho. Notou um envelope grande e azul-marinho sem-gosto ao abrir a porta, e o apanhou para só abrir no doce conforto de seus novos estofados.

Não houve grito nem sussurro. Nem o acorde de um órgão nem a melancolia de um violino. Mas sentiu como se ouvisse tudo, em um uníssono.

Olá KARLA, nós da Fundação Educação pela Juventude agradecemos a sua enorme generosidade e compaixão pela nossa causa. A sua doação irá nos ajudar a levar futuro e dignidade a centenas de crianças. Que Deus retribua o teu ato de bondade.

Vibra o celular. Uma nova mensagem: “Por você eu largo tudo. Largo tudo, em seu nome

Ele escolhera mal a sua prova de amor. Sentiu o sal de uma lágrima. O sentimento se tornara aguado. Sem sabor.

Nicolas Iory