Arquivo mensal: novembro 2011

Devoção abalada

Ademir pelo meio. Ele avança frontalmente, tirando os marcadores com toques curtos e ‘ameaças’ com o corpo. Bom e velho ‘camisa-dez’, o jogador vai abrindo caminho em meio à retranca adversária. Era um espetáculo.
Nunca descia pelas pontas, apenas pelo meio. E avançava… Sem perdão.

Tuco acompanhava apreensivo à grade, logo atrás do gol ao qual Ademir avançava.

Entrada da área – Ademir acelera por dentro e dois zagueiros fecham a batida, mas deixam Junqueira livre pela ponta. Ele recebe de Ademir, bate de primeira e Renê espalma. No rebote, Ademir confere de cabeça. Êxtase no Pacaembu.

Digo, nem tanta (êxtase).

Tuco acompanhou Ademir vindo em direção ao lugar onde ele estava. Acompanhou em transe.

Ademir era alto e corpulento, ostentava uma barba pouco vasta e não sorria. Apenas observava a arquibancada e era abraçado pelos seus companheiros de equipe.

Ele estava parado à frente de Tuco (que recebia cotoveladas de torcedores que tiravam fotos e gritavam o nome do jogador), e não desviou o olhar para nenhum dos torcedores que o saudavam. Olhava apenas para o vazio. No alto.

Tuco não comemorou. Não deu tempo.

Foi tomado por um sentimento estranho. O seu ídolo ali, há meio metro de distância, sem dar a mínima importância para ele ou para qualquer outro que pulava feito criança em colchão de mola, à sua frente.

Ele era tão humano quanto o próprio Tuco, com o agravante de usar uma barba ridícula e de trabalhar com um calção que não lhe cobria nem mesmo os joelhos.
E todo um furor havia se formado por causa daquele ser qualquer, que ignorava a todos.

Tuco saiu do estádio, ainda no decorrer do primeiro tempo.

Caminhava desolado pela praça Charles Müller, pensando sobre todo o dinheiro e tempo que ele perdeu para acompanhar ferrenhamente o trabalho de caras como Ademir, que nada se importavam com ele.

Foi quando avistou um grupo de jovens descalços que faziam malabarismo no semáforo.

Aquilo era um sinal – Ele poderia gastar o seu dinheiro com coisas muito mais importantes que futebol. Poderia ajudar pessoas muito mais necessitadas que o rude Ademir.

Se aproximou do grupo sorrindo, querendo dar um abraço e distribuir algumas quantias, mas teve uma recepção inesperada.

– Santista filho da puta! Pega!

No dia seguinte, Ademir apareceu na televisão prestando homenagens à família de Tuco.

Nicolas Iory

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Não dê esmola, dê futuro

“Dance, dance.
Dance, dance.
All night long and all night long…”

A música fora interrompida. Quem diabos ousara quebrar aquele momento?!
Explico o cenário:

Era manhã e o ônibus estava parado no trânsito. Com a graça de Deus, eu estava confortavelmente sentado em um assento à janela (obviamente, não era nenhum primor de conforto, mas ok), e estava começando a cochilar quando alguém me cutucou.
A minha primeira reação foi me assustar com o gesto. Depois encarei o fulano que me oferecia um pequeno papel com a sua foto e um breve texto.
O leitor perdoe a minha rudez, mas confesso que fiquei verdadeiramente irritado.

Poucos dias antes, os autores desse blog e deste outro estavam conversando sobre esse tipo de mendicância no transporte público. Fiquei estarrecido com a visão d’um deles que me disse “o fulano pode estar morrendo, que eu não dou nem 1 centavo”. Achei arrogante. Eu mesmo costumo me comover com a situação de alguns pedintes, e até ajudo quando sou atingido desse modo. Mas me pus a pensar sobre o assunto.

Ter sete filhos para cuidar e estar desempregado há 4 anos não dá a ninguém o direito de passar mais 4 décadas dependendo apenas da misericórdia de pessoas que trabalham a semana inteira e possuem uma vida igualmente dura (guardadas as proporções).

Estamos cercados de exemplos de pessoas que poderiam ter optado por passar o resto das suas vidas nessa condição, mas batalharam e conseguiram se estabelecer de alguma maneira. Qualquer um (de modo genérico) pode conseguir R$ 5,00, comprar uma caixa de balas e transformar o investimento inicial em R$ 20,00.

“Mas eu tenho 7 filhos e uma vida dura. É mais fácil eu ganhar esses R$ 15,00 apenas contando isso para as pessoas”.  – E é isso que é feito.

“Dar futuro, ao invés de esmola”, como prega a campanha do Estado*, pode ser feito apenas negando esse ‘1 centavo’ para os que pretendem se condenar a ‘pobres coitados’ pelo resta da vida. Ceder ao sentimento de piedade é estimular uma vida miserável e sem perspectivas, ao passo que essas (vidas) poderiam ser levadas através do suor do trabalho, e não do conforto da mendicância.

Atente que entramos num campo complexo e de importância pública e, logo, espero que não busque por um panorama completo e detalhado apenas nesse texto relativamente superficial de uma página. Tenho consciência de que há casos e casos, e que o simples negar de esmolas é apenas um passo para a longa e tortuosa caminhada para melhoria da vida de pessoas que vivem em condições precárias e estão desempregadas.

Hoje, concordo com a minha amiga, mesmo sem saber se os motivos que a leva a agir desse modo são semelhantes com os expostos nesse texto.

“Dance, dance. Dance, dance
We got strong and we got strong” 

Apertei o play e me recusei a segurar o papel daquele homem.

Nicolas Iory
Citações: Red Hot Chili Peppers
(Dance, dance, dance)

*O slogan “Não dê esmola, dê futuro” é usado pelo Programa São Paulo Protege e é direcionado à erradicação do trabalho (o que inclui a mendicância) infantil.

O Cotidiano e seus Males

E este é o Seu Agostino, 60 anos, internado em um hospital psiquiátrico. Pois é, ele teve mais uma de suas crises, mas dessa vez, parece que a família esqueceu ele lá. Dizem por aí que ninguém vai mais tocar no assunto. Deve ser por causa da filha mais velha, que acaba de ter neném. No mínimo, querem privar a criança da convivência com um velho maluco.
É, Seu Agostino… Pobre senhor que, quando jovem, tinha um doce futuro pela frente. Casou-se cedo, com a Dona Zilá. No começo da vida matrimonial, enfrentaram algumas dificuldades, principalmente quando a Inês nasceu. Não tinham dinheiro pro pãozinho, nem pro pão e nem pro pão que o diabo amassou. Depois o sujeito conseguiu um bom emprego.  Ganhava bem, muito bem, e a Dona Zilá passou de costureira à madame do bairro. Na época, ela estava grávida da Celina, que nasceu em berço de ouro. Ela fazia questão de vestir as meninas como princesas, que bobagem.
E o Seu Agostino trocou de carro, comprou ternos novos, reformou a casa e coisa e tal. Mas aí veio a doença, uma depressão sem motivo, sem razão aparente, enfim, um baita de um desgosto pela vida. Logo agora, que ele tinha tudo. Fazer o que, essas coisas não têm hora nem lugar para acontecer. Aí o cara começou a beber, começou a trair, começou a querer fugir da normalidade, porque fugir da normalidade era fugir da depressão.
Tudo bem que a chatice do cotidiano irrita. Mas todo mundo aguenta, porque o velho não podia aguentar? Talvez porque há pessoas que se acham muito especiais pro que é de praxe. Tem gente que quer ter algo “a mais”, pois a vidinha normal não é o bastante. São aqueles que gostam da emoção, do perigoso, do improvável, do jogo sujo.
Acredito que a própria depressão era algo inventado. Ter depressão é ter o status de “ser depressivo”, é viver sem se importar com a vida, é viver diferente, fora da rotina. E quando eu digo fora da rotina entenda-se uma tentativa de suicídio a cada semana, um barraco com a família quase todas as noites, uma experiência astral fascinante provocada pelos remédios.
E o Seu Agostino não queria mais fugir da depressão, ele queria vivê-la, porque era emocionante, era intrigante e chamava os holofotes. Dona Zilá passou a ser o “pai de família” e a cuidar do marido até ter sua paciência esgotada. As filhas cresceram vendo a destruição induzida do pai. E o tempo passou, não havia mais o moço coitadinho, havia agora um velho irritante, que não conseguia nem mais chamar a atenção. O que chamava a atenção agora era a gravidez da Inês, a família só pensava nisso.
E nessa maré de esquecimento o velho surtou, deu um de seus shows. Mas este não contou com o mesmo brilho da juventude. Agora era um velho caduco, não mais um homem problemático, misterioso. Ninguém mais se indagava com a atitude do velho louco.

[Meses depois…]

E aquele é o Seu Agostino, internado em um outro hospital psiquiátrico. Da última vez ele voltou, todos acharam que ele havia superado a crise de déficit de atenção. Ele fez questão de conhecer o neto, ele fez questão de ganhar a confiança de todos, assim como ele fez questão de retomar o brilho do seu espetáculo. O último custou uma vida que mal começara. A família se chocou como nunca antes, e o Seu Agostino atingiu seu objetivo. Não entrarei em detalhes, mas a criança estava irreconhecível no velório.
É, meus caros, aquele que pensa ser louco é, de fato, um louco.

Bruno Souza

Nostalgia festiva

fonte: http://migre.me/64jRr

As pessoas compartilham de um pensamento que eu, particularmente, discordo. Muitos gostam de falar que o “tempo voa”. Não, não é o tempo que voa, quem voa é a nossa mente que a todo tempo quer segurar o tempo como se fosse algo palpável. Pare pra pensar, quanta coisa já aconteceu na sua vida?

Qual foi a última vez que você ganhou um brinquedo de aniversário? Há quanto tempo você não chama a professora de “tia” ? Faz quantos anos que você não vê aquele coleguinha de escola? Quando foi que você se apaixonou pela primeira vez? Quantas pessoas queridas já não estão mais aqui? Alguém ainda lê histórias pra você? Com que frequência você sai pra passear com seus pais?

Eu não sei vocês, mas pra mim, um bocado de coisas já aconteceu. É pura lógica, pra caber essa quantidade de coisas, muito tempo é necessário, ou seja, muito tempo se passou. Contudo, a sensação de que o tempo voa continua, não porque ele voou, mas porque ele passa. Passa e leva junto a memória, as lembranças, as pessoas, os lugares… a vida.

[…]

E eu me lembro de quando ia ao médico com a minha mãe. Entrávamos no consultório, o médico perguntava qual era o problema e a dona Márcia falava por mim. A fórmula era simples. Mas foi num dia como esse que ela disse:

– Quando você fizer 18 anos, terá que entrar sozinho na sala e explicar o que se passa.

Eu, no auge dos meus nove anos, pensei, “falta muito tempo ainda”.

Falta muito pra eu ter responsabilidade, falta muito pra responder pelos meus atos, falta muito pra virar gente grande, enfim, falta muito. Ah, mas o “falta muito” foi encurtando, ano após ano, e cá estou eu, tão nostálgico quanto meu avô falando de sua terra natal.

Amanhã eu faço 18 anos. Vou dirigir, vou entrar nos lugares, vou ter autonomia… Mas de que adianta tudo isso, se terei que entrar no consultório sozinho.

Bruno Souza

Breve elucidação (mania do Nicolas) : Agradeço o passado, aproveito o presente e anseio o futuro…  Parabéns, Bruno. E que venham os próximos 18 anos!