O Cotidiano e seus Males

E este é o Seu Agostino, 60 anos, internado em um hospital psiquiátrico. Pois é, ele teve mais uma de suas crises, mas dessa vez, parece que a família esqueceu ele lá. Dizem por aí que ninguém vai mais tocar no assunto. Deve ser por causa da filha mais velha, que acaba de ter neném. No mínimo, querem privar a criança da convivência com um velho maluco.
É, Seu Agostino… Pobre senhor que, quando jovem, tinha um doce futuro pela frente. Casou-se cedo, com a Dona Zilá. No começo da vida matrimonial, enfrentaram algumas dificuldades, principalmente quando a Inês nasceu. Não tinham dinheiro pro pãozinho, nem pro pão e nem pro pão que o diabo amassou. Depois o sujeito conseguiu um bom emprego.  Ganhava bem, muito bem, e a Dona Zilá passou de costureira à madame do bairro. Na época, ela estava grávida da Celina, que nasceu em berço de ouro. Ela fazia questão de vestir as meninas como princesas, que bobagem.
E o Seu Agostino trocou de carro, comprou ternos novos, reformou a casa e coisa e tal. Mas aí veio a doença, uma depressão sem motivo, sem razão aparente, enfim, um baita de um desgosto pela vida. Logo agora, que ele tinha tudo. Fazer o que, essas coisas não têm hora nem lugar para acontecer. Aí o cara começou a beber, começou a trair, começou a querer fugir da normalidade, porque fugir da normalidade era fugir da depressão.
Tudo bem que a chatice do cotidiano irrita. Mas todo mundo aguenta, porque o velho não podia aguentar? Talvez porque há pessoas que se acham muito especiais pro que é de praxe. Tem gente que quer ter algo “a mais”, pois a vidinha normal não é o bastante. São aqueles que gostam da emoção, do perigoso, do improvável, do jogo sujo.
Acredito que a própria depressão era algo inventado. Ter depressão é ter o status de “ser depressivo”, é viver sem se importar com a vida, é viver diferente, fora da rotina. E quando eu digo fora da rotina entenda-se uma tentativa de suicídio a cada semana, um barraco com a família quase todas as noites, uma experiência astral fascinante provocada pelos remédios.
E o Seu Agostino não queria mais fugir da depressão, ele queria vivê-la, porque era emocionante, era intrigante e chamava os holofotes. Dona Zilá passou a ser o “pai de família” e a cuidar do marido até ter sua paciência esgotada. As filhas cresceram vendo a destruição induzida do pai. E o tempo passou, não havia mais o moço coitadinho, havia agora um velho irritante, que não conseguia nem mais chamar a atenção. O que chamava a atenção agora era a gravidez da Inês, a família só pensava nisso.
E nessa maré de esquecimento o velho surtou, deu um de seus shows. Mas este não contou com o mesmo brilho da juventude. Agora era um velho caduco, não mais um homem problemático, misterioso. Ninguém mais se indagava com a atitude do velho louco.

[Meses depois…]

E aquele é o Seu Agostino, internado em um outro hospital psiquiátrico. Da última vez ele voltou, todos acharam que ele havia superado a crise de déficit de atenção. Ele fez questão de conhecer o neto, ele fez questão de ganhar a confiança de todos, assim como ele fez questão de retomar o brilho do seu espetáculo. O último custou uma vida que mal começara. A família se chocou como nunca antes, e o Seu Agostino atingiu seu objetivo. Não entrarei em detalhes, mas a criança estava irreconhecível no velório.
É, meus caros, aquele que pensa ser louco é, de fato, um louco.

Bruno Souza

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Publicado em 10 novembro, 2011, em Artigos. Adicione o link aos favoritos. 2 Comentários.

  1. Como disse, um dos melhores posts.
    Tráfego entre a narrativa e as reflexões… alguma descontração na linguagem.. até o nome das personagens… Eu achei demais, Brunão! ;D \o/

  2. Isso é que é um final surpreendente.
    Arrebentou, Bru!

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