Arquivo mensal: dezembro 2011

Baseado em fatos inventados

– Talvez haja estudos que identifiquem os estágios pelos quais passamos desde o momento em que nos deitamos até o atingir do pleno sono. –

Fernando estava naquele período em que se está a um passo de dormir, com uma sonolência avançada, mas nem por isso, totalmente desligado dos eventos que ocorriam ao seu redor.
Rosane sim, essa estava dormindo de verdade.

A noite era quente – bem quente – e Rosane vivenciava loucas aventuras enquanto sonhava.

A gente não tem culpa por nossos sonhos e, a exemplo de Fernando, também não somos culpados por nossas atitudes quando acabamos de sair do estágio de plena consciência devido à chegada do sono. É injustiça, por exemplo, ter ciúmes de alguém que pronunciou o nome de outro(a) durante o sono, por mais que os românticos-extremistas desmintam essa minha afirmação.

Entre a corrida de caravelas na Baía de Guanabara e o encontro com o tio distante – outra característica dos sonhos é essa, de mixar uma porção de coisas inusitadas de uma hora para outra, sem que você se dê conta de como ocorreu essa troca de “cenas” – Rosane visualizou um rato.

– Fernando, cuidado com o rato…
– Onde ele está, amor? – disse Fernando, “semi-dormindo”.
– Eu acho que ele está em cima…
– ‘Em cima’ onde?
– Acho que… Em cima da sua cabeça.
– (CRENDEUSPAI)… Então é melhor eu me esconder.

Fernando puxou o edredom até cobrir a cabeça de ambos. A noite era quente.

– Ele ainda está aqui?
– Está sim, mas tem uma cobra vindo pegá-lo.
– Graças a Deus. Vou ficar escondido. Ele é grande?
– Rato enorme vermelho. – a essa altura, Rosane já tivera retornado ao estágio “quase-semi-dormindo”, o que era algo um pouco mais próximo de “dormindo” do que Fernando, e que a impedia de formular as frases de modo lúcido.
– O rato é vermelho?
– Enorme.
– Ai meu Deus… – Fernando soava. Tanto pelo rato, quanto pelo pesado edredom que o cobria.
– Tem uma cobra vindo pegá-lo. – repetiu Rosane.
– Que bom… Vou ficar parado.
– Fica.
– Pegou?
– Não, fugiu.
– Vamos ajudá-la.
– Não. Fica escondido.
– Tá.

Os dois voltaram a dormir.

Na manhã seguinte, ambos acordaram encharcados de suor.
Contrataram um dedetizador, que encontrou apenas um pequeno foco de baratas na lavanderia. Contudo, puderam dormir tranquilamente nas próximas noites.

Nunca nenhum dos dois se deu conta de que havia sido um sonho. Nem mesmo questionaram o perigo que seria ter uma cobra abocanhando o seu jantar sobre a cabeça de Fernando.

Nicolas Iory 

Breve elucidação: Eu realmente me diverti escrevendo essa balbúrdia desse post. Não consegui encontrar nenhuma imagem que ilustrasse bem esse texto, então resolvi postar a foto de um cachorrinho fofo. Ele é fofo, não é?

Eu Bial

Você viu essas nuvens? Nem verá. Passaram. (fonte: http://bit.ly/i40wvM)

Juro que tentei não escrever nada baseado nas festividades de fim de ano. Não que eu desaprove textos do gênero, apenas não acho legal ler 7689 relatos sobre o mesmo assunto (salvo exceções).

Como o leitor atento há de ter percebido, essa minha contenção criativa não será plenamente respeitada, pois esse “espírito” de fim de ano, responsável por resoluções, balanços, tristeza, euforia, impasses, saudosismos, alívio e tempestades (não como essa que cai nesse instante, mas uma dessas tempestades sentimentais… Uma coisa mais lírica mesmo), me despertou um pensamento que eu engendrava há algum tempo.

Os anos continuam passando rápido – salvo as segundas-feiras e o mês de Agosto – na caminhada que a gente teima em não se acostumar. O próprio Bruno (aquele mesmo que escrevia nesse blog em meados de 1987, lembra?) já disse que os anos não voam nem pousam, apenas passam em seu tempo determinado e somos nós que deixamos de notar a sua passagem, sendo pegos de surpresa quando o nome “Dezembro” aparece no virar de páginas do calendário.

O problema não é o tempo passar sem que você se dê conta. O problema é ele levar consigo a sua vida, brother.

Juro, juro, juro que não vou fazer o papel do Pedro Bial e te dizer como levar a vida, apenas quero aproveitar o álibi que o calendário me concede para relembrar que não há mais de uma chance para se fazer tudo o que se deseja. O viver é apenas um.

Não há mais de uma chance para ser o melhor que você puder ser. A jornada é singular.

Não há mais de uma chance para ir à sua festa de formatura, nem há mais de uma oportunidade para ver o primeiro passo do seu neto. Os eventos passam.

Não há como levar o seu filho ao estádio pela primeira vez após o pai do coleguinha dele já tê-lo feito. Ah… a primeira vez… Só uma.

Não dá para pedir a sua amiga em namoro durante a queima de fogos do Reveillon, quando já se está entrando no mês de Junho. As chances se esvaem…

Ok, já quebrei meu juramento. Prometo (de novo prometendo!) continuar minhas chatices de querer intervir na vida alheia apenas em uma nova oportunidade, pode crer.

Boas festas a todos, e usem o filtro solar.

Nicolas Iory

The Wonderwall

Eu – que não gosto de metáforas – fui informado de que há uma parede construída num ambiente íntimo da minha alma. Lá estão emoldurados alguns retratos, num perfeito enquadro. Afixados com pregos de diferentes tipos, notaram que o tamanho da moldura e a disposição de cada um dos quadros estava diretamente relacionado ao tipo de prego que o sustentava. Trabalhando casualmente, estava um funcionário bem ao alto d’uma escada, detendo um portentoso retrato de nós dois entre as pernas e um prego de 4 letras numa das mãos. Com um martelo de palavras e gestos, gravado com o teu nome, o prego se unia à parede a cada golpe. Num falso martelar – pura falta de destreza, decerto – o dedo foi pungido e não mais pôde segurar o prego, que caiu. Com o prego lá, ao chão, de nada o adianta reter o teu martelo. Palavras e gestos trazendo o teu nome martelariam em vão, e o retrato seguiria sem sustentação.

Só o prego sustentaria. E o prego se foi.
Ainda bem que não gosto de metáforas, lembro.

Nicolas Iory

Agonia vegetativa

“And in your head… Do you feel what you’re not supposed to feel?”

"Se espatifaria ou viveria com o Espírito Santo?" (fonte: http://bit.ly/rJg1RJ)

Há muito tempo eu esperei por esse momento e, agora que chegou, estranho por me sentir despreparado.
Enfim me veio a proposta… E eu não soube como lidar.

Pisco. Olho para a direita… Para a esquerda. Durmo.
Essa é a minha rotina diária.

É espantoso o modo como a minha mente é plenamente sã quando reflito sozinho, e duramente debilitada quando tento interagir com o mundo exterior. Sinto como se estivesse sendo tomado por um torpor que me impede de compreender o que acontece ao meu redor e demonstrar um mínimo dessa compreensão.

Naquele dia em especial, eu estava indo bem com o entendimento externo. Entendi as lamentações da enfermeira que veio pela manhã e até consegui me entristecer um pouco com os causos que a minha mãe relatou. Ela, que sempre gostou de conversar com os cães, agora desafogava sua vida em um vegetal. Desafogava em mim.

Sinto pensar, mãe, já que não o posso dizer, mas mesmo estando num raro momento de pleno acompanhamento do que você diz, não estou interessado em saber das suas estórias… Só quero que alguém, um pouco mais racional e bem menos emotivo, me faça uma simples e até óbvia proposta.

Algo minimamente necessário. Algo que apenas aquele doutor resolveu propor.

Eu que angustiei a espera de alguém que se aventurasse a me testar daquele modo, ouvi aquele homem que demonstrava coesão e seriedade em sua função com uma forçada atenção.

Após treinarmos bastante nossa interação e termos combinado o modo como ela se dava, numa súbita revirada na conversa, ele disse:

– A sua família não sabe se pratica ou não a eutanásia. Agora que entendo que você ainda mantém atividade cerebral regular, quero saber se é isso que você deseja… Você deseja morrer, meu amigo?

O nosso código era simples: Eu olhava para a direita quando quisesse responder ‘sim’ e para a esquerda quando a resposta era negativa.

Sempre quis deixar de ser um peso para a minha família, estava exausto de me debater mentalmente. Aquela proposta era a chave para a minha salvação.

Não sei de onde, nem sei porquê… Tive medo e fui pego por uma fraqueza que não estava nos meus planos. Senti que eu estaria sendo egoísta, sei que minha mãe gosta de vir conversar comigo. Além disso… Não queria partir como um suicida… Mas não sei o quanto mais eu suportarei nessa condição…

Fiz minha decisão.
Fechei os olhos.

Já se passou algum tempo desde aquele dia… E, agora, fico me remoendo pelo fato de o doutor ter se esquecido de combinar um terceiro código comigo. Ele se esqueceu de me dar a opção “agora não”.

“… And I not sure if it’ll ever, ever, ever work out right”

Nicolas Iory
Citações: O Rappa
(O Salto); Oasis (Sunday morning call)