Arquivo mensal: fevereiro 2012

Sobre a ira

A ira cochilava no interior de seu ser, inofensiva e despercebida.
Como se fosse um prisioneiro insone que observa o descanso do agente carcerário recostado à grade, o tédio era o único sentimento que estava em atividade na alma daquele sujeito que aparava as unhas no sofá.

Alheia a tudo o que poderia estar se passando com aquele homem e ignorando a total possibilidade de ele não estar igualmente “pilhado”, ela entrou em casa sintonizada em uma frequência diferente e num volume que abafava qualquer ruído da pacatez que acolhia o espírito daquele homem.
Você sabe: com volume alto não se dorme, e assim foi com a ira, que despertara com a atitude daquela que o importunava.

Nunca há algo ou alguém a postos para evitar o despertar daquela fúria e nem há como recriminar o seu acordar. No momento da faísca tudo é pólvora que, despejada em cada palavra, se consome em explosão que se dá indiferente ao grau de relação entre os seus envolvidos.

Na explosão há juras e maldições. Há olhares em chama e gestos que intimidam. Na explosão há tudo aquilo que não deveria sequer ter sido imaginado, mas que é dito, reafirmado e eternizado nas paredes da memória que testemunha aquele atrito.

E não há como injustificá-la, se compreendes o existir da faísca. Nem há como brecar a pólvora, uma vez que o outro lado também a despeja.
Também não há como não ver as suas marcas, ao decantar da poeira.

“Vá embora, tédio recluso. Já não há tempo para ti nessa noite inflamada.
Deixa-me recolher minha ira nesse cárcere, e desejar que a grade a afugente melhor  que o sono tonto, no qual eu confiei.”

E que as marcas de explosões passadas nos façam aprender a conter o impulso combativo, pois mesmo um breve ato de fúria mal direcionado é capaz de direcionar-nos a um longo período de arrependimento.

[E agora eu prometo voltar a escrever sobre coisas mais amenas.]

Nicolas Iory