Arquivo mensal: março 2012

Inveja e gratidão: o outro lado da rua

Por tantas vezes nos deliciamos admirando frases, livros, teses de pessoas famosas que abordam um assunto popular, aparentemente simples, o que obviamente não é: superação.

Em grande parte, procuramos por ideias de gente que obteve força e fé para superar as mais diversas dificuldades e nos inspiramos para seguir nosso próprio caminho (cuja história ou dificuldade nada se relaciona com a observada na vida dessas outras pessoas) mas nunca tiramos de nós mesmos forças para tal. Parece mesmo mais cômodo tomar outras pessoas como base, afinal, se com elas deu certo por que conosco não dará? Talvez por, nos momentos em que a dor parece insuportável, crermos que sozinhos não seríamos os primeiros a nos levantar sendo que ninguém a nossa volta conseguiu tal ato antes.

Talvez seja mesmo fácil se dizer “positivista” quando as coisas vão bem, mas as pessoas positivistas de verdade também são passíveis do choro, do desespero.
Imagino essa pessoa se agachar encostada num canto do quarto e lavar a alma liberando as dores pelos olhos. Minutos depois, suspira após um longo cerrar de olhos e os reabre para vislumbrar a luz que pende de seu teto e sabe agradecer por poder enxergar; sendo que este era o único desejo de milhares de pessoas no mundo. Ela pode sentir o peito arder diante de uma dificuldade, mas sabe que tudo passa e que nenhuma dor é para sempre. E assim como os momentos bons que se vive vão embora, os ruins também o fazem. Percebe que o tempo é seu aliado. Percebe que a cada dia o tempo afastará uma dor de si, a fazendo se curar aos poucos e que o mesmo tempo aconchegará dentro dela momentos de pura felicidade, resguardando-os com carinho de modo inesquecível.

Escolhas e mudanças estão a todo momento cercando cada um, sem distinção. É como quando nos encontramos parados na calçada, querendo atravessar a rua. Estamos com pressa. Olhamos e vemos outra pessoa parada do outro lado – lá está ela – bem onde queríamos estar. E ela está triste, parece não dar valor na sorte que tem e na posição que está.

Os carros não param de passar e o tempo escorre, indo embora. Incontrolável. Olhamos a pessoa do outro lado da rua e a invejamos porque desejamos estar lá no lugar dela para seguir logo com o caminho que escolhemos. Mas a outra pessoa está triste e nós, do outro lado, não entendemos por quê.

Às vezes ocorre isso – observamos fases da vida de outras pessoas e as invejamos, perguntando “como conseguiram chegar aí?” ao invés de nos perguntar “quanto tempo levaram para conseguir chegar aí?”. Vemos a pessoa do outro lado da rua, mas não se sabe quais caminhos ela teve que passar para chegar ali. Quantos buracos, quanta lama, quantos becos escuros e chuva pelo caminho.
Nem toda bela borboleta nasceu com as cores que queria.

É o momento que se deve transformar a inveja em gratidão. Agradecer pelas pernas que nos trouxeram até a beira da rua, que passou pelo resto da cidade suportando as dificuldades e os medos. Agradecer pelo milagre da vida. Agradecer pelos poucos, mas fiéis amigos. Agradecer por haver comida em casa que o manteve vivo para estar ali, pronto para atravessar a rua e escolher um novo caminho. Fazer uma nova escolha.

A oportunidade é arriscada, está vindo um carro longe, mas ele está vindo rápido. Os dedos das mãos se fecham e a esperança renasce no peito, o arfando quando prendemos o ar antes de correr. É preciso tentar atravessar a rua e, de repente, a fé e a gratidão constituem uma força inexplicável para os cientistas que nos impulsionam para frente para tentar mais uma vez.

Mariana de Almeida

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Relato d’um choro

Vê-la chorar foi entristecedor.
Adoraria encontrar palavra mais poética e expressiva para descrever o fato, mas esse era o real poder contido na cena. Era entristecedor, sem dúvida.
Incômodo e desolador poderiam complementar bem a descrição.

Talvez, se me indagassem o principal motivo pelo qual o meu desconforto e súplica foram despertados, eu não citaria a imagem de suas lágrimas misturadas à saliva através do calor do seu rosto juvenil. Também faria pouco caso de seu olhar desamparado, a imagem da desilusão. A tristeza e piedade implorada.

O som de seus soluços, sim.
Aquilo me atormentava. Faria-me chorar também, estivesse eu um pouco mais concentrado.

Entre uma lágrima e outra – a coriza atacando – a menina resmungava algum motivo, esclarecia a sua queda, o que de pouco importava naquele quadro de tristeza no qual ela era a personagem singular.

Era melancólico como talvez fosse um bom ato ao violino numa apresentação à luz baixa e som alto. Plena excelência musical expressando o sentimento do homem que encantava as quatro cordas, fazendo-as reclamar toda a solidão e desmazelo no qual aquela alma musicista encarnava.

Para algumas coisa na vida, como a perda de um ônibus que passa ou o esquecer do guarda-chuvas no escritório, qualquer um (e todos nós) está preparado, de certa forma.
Mas, para aquele choro… Para aquele choro eu não estava.
E eu sei que, por mais que a areia escoe e a pele enrugue, eu jamais me tornarei insensível a ponto de estar preparado para outra cena dessas.

Nicolas Iory

Breve elucidação: Há tempos não pintava nada por aqui.
E naquele período em que as postagens ainda eram corriqueiras, eu escrevi esse texto mas não gostei o bastante, a ponto de julgá-lo apto a entrar no blog.
A sua postagem, agora, se dá única e exclusivamente para selar a despedida  a qualquer tipo de texto que possua cunho “poético-lírico-romancista” de minha parte.
Será isso até que a minha inconstância prove o contrário.