Arquivo mensal: abril 2012

De um manuscrito anônimo

Sim, você está ficando velho. E se isso não te parece ser algo positivo, talvez seja uma das maiores honras para estórias, contos, lendas e tudo aquilo que é contado por aí. E este orgulho não se justifica simplesmente pela determinação de uma idade elevada, mas sim pela certeza do reconhecimento de várias gerações que mantiveram essas histórias vivas através do tempo.
Tomemos os vampiros como exemplo.

Fugindo do fato de haver teorias que afirmam a existência desses seres e de essa crença já ter, inclusive, gerado diversos mal-entendidos no passado – em especial na Europa, onde essa lenda surgiu – vamos nos ater apenas à genialidade artística contida nessa estória.

Era início do século 19, quando o romance The Vampyre, de John Polidori, mudou os rumos da história dessa criatura soturna, modificando e acrescentando elementos que ajudaram a tornar a lenda fantástica e intrigante.

Um homem sedutor, rico, educado e convidativo que vive em isolamento e trai a sua vítima num crime de violência branda, porém expressiva e imensamente significativa.
Genial.

Muitas outras boas histórias daquela época também chegaram até nós, mas há uma que se “manteve viva” única e exclusivamente pela boa vontade de uma família que tutelou o seu manuscrito original por quase 200 anos, até me negociarem na semana passada, em troca de um memory card de PlayStation.

Segue a lenda, sem data e/ou autor:

Num pequeno reinado localizado a oeste da nascente do Rio Dnieper, diz-se ter vivido um talentoso alquimista chamado Valeryevich que teria descoberto uma combinação preciosíssima ao lado do seu pai, o velho alquimista Olehv: A poção do esquecimento.

A substância era infalível por natureza, uma vez que dispensava o seu consumo ou inalação para surtir efeito: bastava um único contato visual para se esquecer completamente das últimas 24 horas vividas.

A descoberta do efeito da poção teria se dado apenas 3 meses após a criação da fórmula em si, pelo óbvio fato de Valeryevich se esquecer da descoberta a cada vez que a encarava.
Coube a Olehv notar que havia algo de errado, realizando alguns testes de memória com o filho por cima da divisória que separava a bancada de trabalho dos dois e o impedia de visualizar a fórmula para conseguir constatar o feito de Valeryevich.

Os dois teriam se valido da fórmula para realizar roubos milionários sem que fossem pegos, até que, em uma das investidas da dupla, uma senhora cega presenciou o saqueio e denunciou à guarda local, apontando os dois alquimistas como os responsáveis pelo roubo.

Valeryevich e Olehv foram condenados e enforcados em praça pública sem que tivessem revelado a existência da fórmula que os possibilitou saquear o tesouro real em três oportunidades.

Quando os primeiros guardas foram realizar a vistoria do domicílio dos alquimistas, deram de cara com a fórmula no primeiro cômodo da casa e se esqueceram do motivo pelo qual estavam ali. Após o envio de mais cinco equipes para realizar a vistoria sem obter sucesso, a Igreja declarou o local como “mal-assombrado” e ordenou o tombamento da residência, eliminando qualquer vestígio da substância.

Melhor assim.

Nicolas Iory

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Crowdfunding – “me ajude a te ajudar”

Há pouco mais de um mês, a diretoria da Sociedade Esportiva Palmeiras lançou a campanha “Wesley no Verdão”, cujo objetivo era arrecadar doações dos torcedores para contratar esse jogador. A campanha conseguiu mais de 830 mil reais, o quê, no entanto, ficou bem abaixo do valor necessário para a compra do passe de Wesley: cerca de 21,3 milhões de reais.

Embora a atitude da diretoria tenha sido questionada quanto ao “direito ético” de um clube realizar esse tipo de ação, nossa proposta é apresentar um pouco mais sobre esse tipo de “arrecadação em massa”, chamada mundialmente de crowdfunding.

Essa prática compartilha dos mesmos princípios comportamentais das tradicionais “vaquinhas” e das já famosas compras coletivas – A busca por realizar bons negócios com pouco investimento, o bem coletivo (às vezes ele existe mesmo) e certa solidariedade com o beneficiado pela campanha.

Tradicionalmente (se é que se pode usar esse termo para algo tão recente), o crowdfunding consiste em buscar o financiamento de um projeto – o que costuma ocorrer através da internet – onde é apresentada a ideia, o valor necessário para a sua realização e um prazo final para as arrecadações. Desse modo, pessoas que se interessam pela execução do projeto poderão realizar doações que, caso não atinjam o valor necessário (assim como ocorreu com a campanha do Palmeiras), são devolvidas integralmente aos doadores.

Há empresas que lucram a partir do crowdunfing, como a MOP (My Own Player), que gerencia arrecadações para contratar jogadores de futebol para determinados clubes, como o caso já citado nessa postagem, e o Kickstarter, uma referência nos EUA que já permitiu a realização de mais de 380 mil projetos através da “vaquinha” online.

No Brasil, o movimento Queremos traz uma proposta um pouco diferente a do “crowdfunding tradicional”: são observadas as agendas de shows de artistas internacionais e, quando anunciada a vinda dos músicos ao Brasil, o movimento entra em contato com os produtores para cotar o custo de um show na cidade do Rio de Janeiro (sede do projeto) e loteiam essa quantia em cerca de 100 partes (essa quantia varia para cada evento) que são vendidas para garantir a execução do evento. Posteriormente, começam a serem vendidos os ingressos para o show e, conforme a arrecadação nas bilheterias, os “financiadores” iniciais recebem de volta uma porcentagem do que foi investido, que pode chegar à totalidade do valor pago. Ou seja: aqueles que possibilitaram a realização do show poderão assisti-lo de graça!

Pietra Príncipe de Lucca - Foto: http://bit.ly/HilQ91

Essa pode ser uma ótima possibilidade para quem deseja lançar um CD, publicar um livro, angariar fundos para uma ação social ou, assim como a apresentadora Pietra Príncipe está tentando, conseguir 300 mil reais para fazer um ensaio fotográfico nua.

É isso aí, Milton.*

Nicolas Iory

* Texto inspirado nas dicas do jornalista e coordenador do portal Catraca Livre, Gilberto Dimenstein, no quadro Capital Humano, do Jornal da CBN – 1° edição.
Ao encerrar a sua participação no programa, Dimenstein costuma fazer uso de frases como “é isso aí, Milton”, chamando o retorno do âncora do jornal, Milton Jung.

links:
MOP – https://web4.mopbr.com/
Queremos – http://queremos.com.br/
Crowdfunding Brasil – http://bit.ly/HimF1p
Nake it (Pietra Príncipe) – http://nakeit.com/
Catraca Livre – http://catracalivre.folha.uol.com.br/