Arquivo mensal: janeiro 2013

Morte Súbita – Afinal, o que você esperava?

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Não sou bom em reconstruir personagens mentalmente. Normalmente, comparo as características dadas pela autora com as das pessoas que conheço e elejo a mais “parecida” para “encarnar a personagem” no meu imaginário. Não imaginei ninguém parecido com esse cara. =( Seria Simon? Talvez Gavin?

J. K. Rowling faz, em Morte Súbita, quase que o contrário do que fez nos sete livros da saga Harry Potter: a autora conta a história de uma personagem por meio da apresentação de um espaço, enquanto, em sua obra mais conhecida, ela apresenta um mundo enquanto conta a história de sua personagem mais famosa (Harry).

Esse foi o melhor jeito que achei para comparar a nova obra da “escritora mais lida do mundo” – assim como descrito na contracapa do livro – com a saga que a alçou a esse patamar.

Morte Súbita – adaptado (ao meu ponto de vista, acertadamente) do original em inglês The Casual Vacancy -, esquenta, mas não ferve.

Esse talvez seja um efeito colateral da intenção da autora na obra, expressa na declaração dada em evento realizado em Nova York, reproduzida pelo Portal Uol: “Quero que quando as pessoas comprem este livro, elas entendam porquê, antes da cena final, estes personagens tomam as decisões que tomam”.

J. K. Rowling atinge esse objetivo devido a uma detalhada descrição de cada personagem e de cada ambiente – coisa que a autora faz muito bem, diga-se de passagem. No entanto, o volume de personagens aos quais J.K. Rowling é obrigada a dedicar essa atenção impede que a história se desenvolva com maior fluidez. Com mais de 1/5 da obra lida, ainda é fácil confundir as personagens com dúvidas do tipo: “Quem é essa Ruth mesmo?” ou ainda: “Jaswant é uma das gêmeas de Barry ou filha de Parminder?”.

A história se passa em Pagford, vilarejo fictício situado em Yarvil (UK), e é suscitada pela morte de um membro do Conselho Distrital da cidade. A disputa pela cadeira vaga catalisa os conflitos no vilarejo, que vão muito além da questão eleitoral. Ninguém é “mocinho” nem “mocinha” em Pagford e, certamente, haverá aqueles que odeiam a personagem com a qual você mais simpatiza e vice-versa.

Nas livrarias brasileiras desde o dia 06 de dezembro do ano passado pela Editora Nova Fronteira (que venceu a disputa com outras quatro empresas, segundo a Folha de S. Paulo, entre elas a Rocco, responsável pela publicação dos livros de Harry Potter no Brasil), a história traz questões sociais que até assustam aqueles que estão acostumados com os conflitos passionais das personagens de Hogwarts. A dependência química, bullying, prostituição, assédio sexual, a religião Sikh e, principalmente, a questão política a respeito de um bairro pobre são apresentadas no livro.

A sexualidade, a propósito, é artifício recorrente nas diversas situações em que a autora viu-se na possibilidade de usá-la. Sem querer ser o politicamente correto, confesso que às vezes me soou um tanto quanto desnecessário.

Bem mais que as questões sociais, o livro usa e abusa dos conflitos familiares. Discussões e pensamentos atravessados preenchem e são responsáveis por boa parte da história, que, apesar do ritmo pouco acelerado, guarda algumas surpresas e até momentos de indignação e/ou compaixão.

“Tragédia cômica” com “um humor bastante negro” é a definição da autora para Morte Súbita, de acordo com o Portal G1. Particularmente, não acredito que “cômico” seja um adjetivo muito apropriado à obra e, quanto ao “humor negro”, também acho que ele se restringe basicamente às inflexões de “Bola” Wall (que no original “Fats” Wall é bem mais aceitável).

Ainda de acordo com o G1, a história deve ser transformada em minissérie pela BBC em 2014. A ideia é bem interessante, já que a narrativa se assemelha bem mais ao formato dos seriados que aos roteiros de cinema.

Das breves análises que li a respeito do livro, dou destaque ao comentário de Boyd Tonkin, do jornal britânico Independent, segundo o Portal Uol, que ressalta o fato de a autora se sair melhor na descrição das personagens mais jovens, ao passo que seus pais às vezes parecem caricaturais. Isso é notável principalmente na descrição de personagens como Collin Wall e Howard Mollison.

Em tempo, ainda vale transcrever a crítica de Monica Hesse, do The Washington Post, embora esta tenha sido por pura maldade: “Ao longo de The Casual Vacancy, eu não conseguia deixar de ter um pensamento dominante, que a devotada fã que existe em mim odeia partilhar, já que tenho certeza de que é o que Rowling mais detesta escutar: esse livro seria um pouco melhor se todo mundo tivesse uma varinha de condão”.

Não acho que faltam varinhas ou qualquer artefato do mundo de Hogwarts na história, mas entendo a expectativa de Monica. Mas afinal, como esperar que a autora repetisse o primor que a levou a vender mais de 450 milhões de cópias com a história de Harry Potter?! Mas, por outro lado, como não esperar?

por Nicolas Iory