A vista daquele prédio

predio amarelo de esquina

Imagem: Joana Viegas (http://migre.me/eHXg2)

A vista daquele prédio era ótima. Ele enxergava tudo dali, parado, no alto de seus sete andares. Enxergava o trânsito a algumas quadras. Enxergava o casal se amando no 3º andar às segundas e os irmãos do 5º brigando aos domingos. Enxergava também os bêbados e os mendigos (às vezes um era o outro, mas isso não consistia em regra). Certa vez, o prédio bisbilhoteiro avistou uma construção brotando no horizonte (que nem era tão amplo para  ele, devido à sua modesta altura). Torceu para que fosse um prédio menina (ele já se interessara por alguns prédios meninos antes, mas talvez só por nunca ter avistado um menina desde sua construção [que é equivalente ao nascimento, no mundo dos prédios]). Aquele novo edifício demorou a sair. O casal do 2º andar até se separou nesse meio tempo. Ficou a moça, uma ruiva com as raízes por tingir. Recomeçara a obra. Prometia ser grande. Algo em torno de 20 andares. Daquele lado da cidade, as construções eram maiores e mais modernas. Sonhava com um prédio menina vermelho. A construção possuía colunas, divisões e andares, mas nunca eram feitas as paredes externas. Apesar de achar estranho, isso agitava a imaginação do prédio que enxergava. Saber o que está por dentro poderia compor seus futuros fetiches com o edifício novo. A ruiva do 2º andar dava para outro enquanto a construção ganhava altura. Os irmãos continuavam a brigar de domingo. Isso não mudava. O prédio no horizonte sim. Algo estava sendo colocado em seu exterior. Não eram paredes. Pareciam janelas. Eram placas espelhadas e idênticas, todas em um tom azulado. O prédio bisbilhoteiro desanimou. Resolveu até ranger de vez em quando (os irmãos do 5º andar notaram e se assustaram, mas os adultos não deram importância às suas percepções). Em certa manhã, dessas que são geladas e úmidas, indicando que o dia será de calor, o prédio que enxergava viu, por intermédio das últimas placas espelhadas que eram alocadas na nova construção, o reflexo de outro edifício que ficava dum lado mais elevado da cidade, onde ele nunca tinha visto antes. O edifício era vermelho. O prédio que enxergava se apaixonou. E teve certeza de que era um prédio menino que gostava de prédios meninas. Foram semanas de romance visual. O prédio quase não rangia mais. Os irmãos brigavam. A ruiva tinha retocado a tintura das raízes e namorava outro cara. O prédio que enxergava recebeu uma nova camada de tinta também. Ele gostava de tinta. Era como carinho. Prédios gostam de carinho (ao menos os que enxergam). Mas algo o incomodava. Eram as noites. Enquanto o novo namorado se divertia com o corpo firme da ruiva, o prédio não podia ver sua amada do outro lado da cidade. Não havia reflexo após o pôr do sol. Afinal, será que ela conseguia vê-lo? Afinal, qual o sentido de se apaixonar sem conhecer? E como querer e não tocar? O prédio esperou o amanhecer, impaciente para ver sua amada. Examinou-a com admiração e forçou a vista para descobrir o nome estampado na fachada do edifício. Veio o susto, seguido do desespero. “ATIVI DE”, ele leu. Recorreu à sua própria placa: “ATIVI  II”. O prédio se apaixonara pela irmã. A ruiva não estava em casa naquela noite. Os irmãos brigavam. O prédio apaixonado pela irmã. Ela distante.  E os inseparáveis do 5º andar não paravam de brigar. Rangeu com toda sua força. Sabia que exagerara. Não foram só os irmãos que perceberam desta vez. Um estalo. Uma coluna que se partiu e criou um efeito dominó. O prédio que enxergava ruiu.

A ruiva chegou acompanhada, mas foi barrada no cerco de policiais que isolaram o local. Seu cliente desistiu e partiu. Sob os escombros, todos seus livros da faculdade e algum dinheiro ganho fazendo programas.

Do outro lado da cidade, um sopro de poeira beijou a fachada do ED. I. VITA.
A vista daquele prédio era ótima, mas ele não sabia que os reflexos mostravam letras invertidas.

Nicolas Iory

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Publicado em 24 maio, 2013, em Contos e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. 1 comentário.

  1. MEU DEUS DO CÉU, que saudade dos seus textos sensacionais!
    Até tô cogitando perdoá-lo por ter abandonado seus leitores quase eternamente…

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