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Vida de cão

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Estou dormindo cedo para economizar luz elétrica.

Estou almoçando tarde para não jantar.

Faço hora extra para evitar a hora do rush e, assim, gastar menos gasolina no trânsito.

Adotei o bigode para não gastar com Prestobarba.

Uso a cueca dos dois lados porque acabou o sabão em pó.

Estou lendo mais para não gastar energia com a televisão.

Trabalho de sábado e domingo para garantir a condução da semana inteira.

Voltei a pedalar por falta de gasolina.

Comecei a caminhar, porque não tinha dinheiro para trocar o pneu da bike, que furou.

Parei de fumar. Porque me falta o dinheiro, é claro.

Dou apenas uma rápida passada nas festas às quais sou convidado, para não dar tempo de ser-me cobrado o convite.

Essa história não termina engraçada como convinha ser. Faltou-me o dinheiro para dar ao cara responsável por essa parte dos meus posts.

Nicolas Iory

Inveja e gratidão: o outro lado da rua

Por tantas vezes nos deliciamos admirando frases, livros, teses de pessoas famosas que abordam um assunto popular, aparentemente simples, o que obviamente não é: superação.

Em grande parte, procuramos por ideias de gente que obteve força e fé para superar as mais diversas dificuldades e nos inspiramos para seguir nosso próprio caminho (cuja história ou dificuldade nada se relaciona com a observada na vida dessas outras pessoas) mas nunca tiramos de nós mesmos forças para tal. Parece mesmo mais cômodo tomar outras pessoas como base, afinal, se com elas deu certo por que conosco não dará? Talvez por, nos momentos em que a dor parece insuportável, crermos que sozinhos não seríamos os primeiros a nos levantar sendo que ninguém a nossa volta conseguiu tal ato antes.

Talvez seja mesmo fácil se dizer “positivista” quando as coisas vão bem, mas as pessoas positivistas de verdade também são passíveis do choro, do desespero.
Imagino essa pessoa se agachar encostada num canto do quarto e lavar a alma liberando as dores pelos olhos. Minutos depois, suspira após um longo cerrar de olhos e os reabre para vislumbrar a luz que pende de seu teto e sabe agradecer por poder enxergar; sendo que este era o único desejo de milhares de pessoas no mundo. Ela pode sentir o peito arder diante de uma dificuldade, mas sabe que tudo passa e que nenhuma dor é para sempre. E assim como os momentos bons que se vive vão embora, os ruins também o fazem. Percebe que o tempo é seu aliado. Percebe que a cada dia o tempo afastará uma dor de si, a fazendo se curar aos poucos e que o mesmo tempo aconchegará dentro dela momentos de pura felicidade, resguardando-os com carinho de modo inesquecível.

Escolhas e mudanças estão a todo momento cercando cada um, sem distinção. É como quando nos encontramos parados na calçada, querendo atravessar a rua. Estamos com pressa. Olhamos e vemos outra pessoa parada do outro lado – lá está ela – bem onde queríamos estar. E ela está triste, parece não dar valor na sorte que tem e na posição que está.

Os carros não param de passar e o tempo escorre, indo embora. Incontrolável. Olhamos a pessoa do outro lado da rua e a invejamos porque desejamos estar lá no lugar dela para seguir logo com o caminho que escolhemos. Mas a outra pessoa está triste e nós, do outro lado, não entendemos por quê.

Às vezes ocorre isso – observamos fases da vida de outras pessoas e as invejamos, perguntando “como conseguiram chegar aí?” ao invés de nos perguntar “quanto tempo levaram para conseguir chegar aí?”. Vemos a pessoa do outro lado da rua, mas não se sabe quais caminhos ela teve que passar para chegar ali. Quantos buracos, quanta lama, quantos becos escuros e chuva pelo caminho.
Nem toda bela borboleta nasceu com as cores que queria.

É o momento que se deve transformar a inveja em gratidão. Agradecer pelas pernas que nos trouxeram até a beira da rua, que passou pelo resto da cidade suportando as dificuldades e os medos. Agradecer pelo milagre da vida. Agradecer pelos poucos, mas fiéis amigos. Agradecer por haver comida em casa que o manteve vivo para estar ali, pronto para atravessar a rua e escolher um novo caminho. Fazer uma nova escolha.

A oportunidade é arriscada, está vindo um carro longe, mas ele está vindo rápido. Os dedos das mãos se fecham e a esperança renasce no peito, o arfando quando prendemos o ar antes de correr. É preciso tentar atravessar a rua e, de repente, a fé e a gratidão constituem uma força inexplicável para os cientistas que nos impulsionam para frente para tentar mais uma vez.

Mariana de Almeida

Relato d’um choro

Vê-la chorar foi entristecedor.
Adoraria encontrar palavra mais poética e expressiva para descrever o fato, mas esse era o real poder contido na cena. Era entristecedor, sem dúvida.
Incômodo e desolador poderiam complementar bem a descrição.

Talvez, se me indagassem o principal motivo pelo qual o meu desconforto e súplica foram despertados, eu não citaria a imagem de suas lágrimas misturadas à saliva através do calor do seu rosto juvenil. Também faria pouco caso de seu olhar desamparado, a imagem da desilusão. A tristeza e piedade implorada.

O som de seus soluços, sim.
Aquilo me atormentava. Faria-me chorar também, estivesse eu um pouco mais concentrado.

Entre uma lágrima e outra – a coriza atacando – a menina resmungava algum motivo, esclarecia a sua queda, o que de pouco importava naquele quadro de tristeza no qual ela era a personagem singular.

Era melancólico como talvez fosse um bom ato ao violino numa apresentação à luz baixa e som alto. Plena excelência musical expressando o sentimento do homem que encantava as quatro cordas, fazendo-as reclamar toda a solidão e desmazelo no qual aquela alma musicista encarnava.

Para algumas coisa na vida, como a perda de um ônibus que passa ou o esquecer do guarda-chuvas no escritório, qualquer um (e todos nós) está preparado, de certa forma.
Mas, para aquele choro… Para aquele choro eu não estava.
E eu sei que, por mais que a areia escoe e a pele enrugue, eu jamais me tornarei insensível a ponto de estar preparado para outra cena dessas.

Nicolas Iory

Breve elucidação: Há tempos não pintava nada por aqui.
E naquele período em que as postagens ainda eram corriqueiras, eu escrevi esse texto mas não gostei o bastante, a ponto de julgá-lo apto a entrar no blog.
A sua postagem, agora, se dá única e exclusivamente para selar a despedida  a qualquer tipo de texto que possua cunho “poético-lírico-romancista” de minha parte.
Será isso até que a minha inconstância prove o contrário.

Sobre a ira

A ira cochilava no interior de seu ser, inofensiva e despercebida.
Como se fosse um prisioneiro insone que observa o descanso do agente carcerário recostado à grade, o tédio era o único sentimento que estava em atividade na alma daquele sujeito que aparava as unhas no sofá.

Alheia a tudo o que poderia estar se passando com aquele homem e ignorando a total possibilidade de ele não estar igualmente “pilhado”, ela entrou em casa sintonizada em uma frequência diferente e num volume que abafava qualquer ruído da pacatez que acolhia o espírito daquele homem.
Você sabe: com volume alto não se dorme, e assim foi com a ira, que despertara com a atitude daquela que o importunava.

Nunca há algo ou alguém a postos para evitar o despertar daquela fúria e nem há como recriminar o seu acordar. No momento da faísca tudo é pólvora que, despejada em cada palavra, se consome em explosão que se dá indiferente ao grau de relação entre os seus envolvidos.

Na explosão há juras e maldições. Há olhares em chama e gestos que intimidam. Na explosão há tudo aquilo que não deveria sequer ter sido imaginado, mas que é dito, reafirmado e eternizado nas paredes da memória que testemunha aquele atrito.

E não há como injustificá-la, se compreendes o existir da faísca. Nem há como brecar a pólvora, uma vez que o outro lado também a despeja.
Também não há como não ver as suas marcas, ao decantar da poeira.

“Vá embora, tédio recluso. Já não há tempo para ti nessa noite inflamada.
Deixa-me recolher minha ira nesse cárcere, e desejar que a grade a afugente melhor  que o sono tonto, no qual eu confiei.”

E que as marcas de explosões passadas nos façam aprender a conter o impulso combativo, pois mesmo um breve ato de fúria mal direcionado é capaz de direcionar-nos a um longo período de arrependimento.

[E agora eu prometo voltar a escrever sobre coisas mais amenas.]

Nicolas Iory